27.10.12

Coragem



Dorinha, que mora um andar acima, teclou comigo só para confidenciar: está aprendendo a não se sentir tão culpada. Está aprendendo a respeitar seus desejos e limites. Se ela deu uma resposta enviesada, se acordou de mau humor e não quis conversa, se preferiu ficar lendo aquele livro de seiscentas páginas em vez de arrumar o quarto, se deu um fora no jantar em família, se, se, se, se... ela garante: pede desculpas a quem magoou, volta atrás e tenta reparar o erro, liga o MP3, dança sozinha no quarto ou dedilha sua música favorita no violão (Que lúdico, não?). Sem culpa. Tudo sem culpa (Ham? Culpa, o que é isso?). Ela não é perfeita, não é robô, não é máquina programada só para acertar, aceitar e ser boazinha. Tem vez que ela abotoa o pensamento naquele alguém especial que não dá bola. É quando ela acha a vida injusta. Porque justiça seria se esses dois corações se autoconectassem de uma vez por todas e, juntos, se teletransportassem para um luau em terras paradisíacas. Enfim, quanta coisa imperfeita e inconstante sublimando ao vento, igualzinho a ela. 
Primeiro ela vai se amar. Já está se amando. Engraçado que então percebeu que amor começa mesmo com a gente, daí o mundo se torna um lugar mais habitável e humano. Ela está se sentindo mais desoprimida (Que bom!).
Definitivamente, está nascendo uma nova Dorinha: uma Dorinha que se adora, que se entende (Será?) e adora as pessoas a sua volta, do jeito que elas são, cheias de altos e baixos, tristezinhas, muxoxos e sorrisos. Ser gente é assim, metamorfosear-se, tentando ser feliz.


pedro antônio de oliveira


Um comentário:

Raphael Brian disse...

Nossa, que lindo. Confesso a você que fiquei emocionado com o texto. Eu me identifiquei com a personagem. Por tratar da condição humana a literatura faz isso com a gente. Ela vem cheia de surpresas lançando teias aos seus interlocutores. PARABÉNS, QUE LINDO.